“Graças a Deus, não nasci em 1500: nasci tarde demais para o desconhecido, cedo demais para a lucidez. Não sei o que procuro, mas sei do que fujo. Não sei o que encontro, mas sei que vou, que flutuo – como este grande balão, devagar e em frente, suspenso sobre tudo que são as certezas, a terra firme onde os outros são felizes e realizados e eu não. [...] E, todavia, flutuo. Estou entre mar e terra, entre a Europa, cansada e demente, e o Novo Mundo, onde tudo pode ser diferente. Flutuo, estou feliz, bebi demais ao jantar, o luar de prata dançando sobre a água aqui debaixo faz-me sentir eufórico e alheio, aproveito este intervalo, estes dias que não sou de lado algum, em que não tenho pé em terra nem no mar, para pensar no concreto da vida. E, quanto mais penso, mais me apetece que esta viagem nunca mais acabe.”
["Rio das Flores", M. S. Tavares]